quarta-feira, 8 de julho de 2009

O gene corrúpto

Instigado pela Boi na Rede, sou obrigado a me manifestar sobre a possível contratação do Muricy Ramalho pelo Verdão. A contratação em si é uma discussão, o que proponho aqui é outro aspecto, que ladeia o primeiro. E pode ser iniciado com a seguinte pergunta: o que levou Muricy, o calejado técnico são-paulino, a deixar o clube?

A primeira resposta pode ser a mais óbvia. A sequencia de derrotas o puseram no chão, tirando das nuvens nas quais ele flutuava havia anos. Mas esse ainda não é o aspecto mais importante. Ou ao menos não é a resposta mais correta (sim, no futebol, a resposta pode ser meio correta, como uma mulher meio grávida). Assim como um copo meio cheio também está meio vazio, dizer que as derrotas derrubaram Muricy é o mesmo que dizer que as vitórias foram conseguidas somente por ele. Só é verdade por algum ângulo.

Vejamos o quadro: o Muricy vinha voando baixo, bebendo água direto na fonte da deusa Vitória. Tanto, que a ele poderia ser dado o título de vencedor dos vencedores, o verdadeiro "olímpico". Mas, de repente, o homem desabou de seu pedestal e espatifou-se no chão (isso é mentira, e veremos o motivo). Nem Ulisses teve tão amargo destino após a vitória.

Se a culpa pelas derrotas fosse de Muricy, certamente não o estariam querendo como técnico agora. É verdade que, às vezes, perde-se o controle do time, e ele se desmancha em derrotas consecutivas. Foi o caso? Talvez. Mas a perda de controle não se deveu a ele. Não somente a ele.

Me lembro bem de quando a tabela virou-se contra o São Paulo. Foi pouco depois da contratação do Coração Valente, o quase-rei Bretão Washington. Dagol, o bravo, vislumbrou o distanciamento de seu posto. Os gols, agora, caberiam ao Coração Valente. Foi aqui, nesse momento, que mostrou-se a tragédia são-paulina e de todos os clubes brasileiros: a diretoria. Incompetente, irresponsável. Odiosa, até. Foi graças a ela, e tão-somente a ela, que caiu Muricy. Que a tabela virou-se contra o São Paulo. E que agora os torcedores do velho santo mergulharão, naufragarão, nas águas da irremediável - derrota!

Por isso Muricy não se espatifou no chão. Por isso Muricy continua por cima, enquanto o São Paulo começa a cavar por baixo. E não por outro motivo que ele deveria ser o técnico da Seleção Brasileira (apesar do Ricardo Teixeira, bem pior do que os dirigentes do São Paulo).

Agora, discutir em qual time ele deve se instalar, baseado somente na questão da tradição, é o mesmo que tentar comparar a civilização grega com a minóica , dizendo que uma é superior à outra porque uma sobreviveu até hoje, enquanto a outra foi digerida pelas mesclas e pelo tempo.

Está na genética do futebol brasileiro: o cartola, esse mal terrivel e aparentemente insuperável, que se enrola como víbora a espera de dar o bote, é o gene responsável por essas mutações, que acabam marginalizando técnicos de ponta. Felipão se mandou para a margem do Brasil. Veremos se Muricy também irá.

Os dirigentes do São Paulo são tidos como alguns dos melhores do Brasil. São tão imundos quanto todos os outros.

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